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The fall and Angel
sábado, 28 de maio de 2050
A Culpa é das Estrelas
Sinopse: Os adolescentes Hazel e Gus gostariam de ter uma vida normal. Alguns diriam que não nasceram com estrela, que o mundo deles é injusto. Os dois são novinhos, mas se o câncer do qual padecem ensinou alguma coisa, é que não há tempo para lamentações, pois, se aceitamos ou não, só existe o hoje e o agora. E assim, com a intenção de realizar o maior desejo de Hazel - conhecer seu escritor favorito - ambos cruzarão o Atlântico para uma aventura contra o tempo, tão catártico quanto devastador. Destino: Amsterdam, o lugar onde reside o enigmático e mal-humorado escritor - a única pessoa que talvez possa ajudar-lhes a encaixar as peças do enorme quebra-cabeça onde se encontram.
ACEDE 1
FALTANDO POUCO PARA eu completar meu décimo sétimo ano de vida minha mãe resolveu que eu estava deprimida, provavelmente porque quase nunca saía de casa, passava horas na cama, lia o mesmo livro várias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu abundante tempo livre pensando na morte.
Sempre que você lê um folheto, uma página da Internet ou sei lá o que mais sobre câncer, a depressão aparece na lista dos efeitos colaterais. Só que, na verdade, ela não é um efeito colateral do câncer. É um efeito colateral de se estar morrendo. (O câncer também é um efeito colateral de se estar morrendo. Quase tudo é, na verdade.) Mas a mamãe achava que eu precisava de tratamento, então me levou ao meu médico comum, o Jim, que concordou que eu, de fato, estava nadando numa depressão paralisante e totalmente clínica e, portanto, ele ia trocar meus remédios e, além disso, eu teria que frequentar um Grupo de Apoio uma vez por semana.
O grupo era formado por um elenco rotativo de pessoas com várias questões psicológicas desencadeadas pelos tumores. A razão de o elenco ser rotativo? Efeito colateral de se estar morrendo.
O Grupo de Apoio era megadeprimente, óbvio. A reunião acontecia toda quarta-feira no porão de uma igreja episcopal — uma construção no formato de cruz com paredes de pedra. Nós nos sentávamos em uma roda bem no meio da cruz: onde os dois pedaços de madeira um dia se cruzaram, onde esteve o coração de Jesus.
Sabia disso porque o Patrick, Líder do Grupo de Apoio e o único naquele lugar com mais de dezoito anos, falava sobre o coração de Jesus todo raio de reunião, sobre como nós, jovens sobreviventes do câncer, estávamos sentados bem no sagrado coração de Cristo, e tal.
Bem, era assim que acontecia no coração do Senhor: os seis ou sete ou dez de nós chegávamos lá a pé/de cadeira de rodas, comíamos um pouco daqueles biscoitos velhos com limonada, sentávamos na Roda da Esperança e ouvíamos o Patrick contar pela milésima vez a história ultra deprimente e super infeliz da sua vida — sobre ter tido câncer nas bolas e acharem que ele ia morrer, mas não morreu, e ali estava, já adulto, no porão de uma igreja na 137ª cidade mais linda dos Estados Unidos, divorciado, viciado em videogames, quase sem amigos, levando uma vida sem graça explorando seu fantástico passado com câncer, ralando para terminar um mestrado que não vai melhorar sua perspectiva de progresso na carreira e esperando, como todos nós, que a espada de Dâmocles traga para ele o alívio do qual escapou muitos anos atrás, quando o câncer levou seus testículos e lhe deixou algo que só a alma mais generosa poderia chamar de vida.
E VOCÊS TAMBÉM PODEM TER ESSA SORTE!
Aí nós nos apresentávamos: Nome. Idade. Diagnóstico. E como estávamos no dia. Meu nome é Hazel, dizia na minha vez. Dezesseis. Tireoide, originalmente, mas com uma respeitável colônia satélite há muito tempo instalada nos pulmões. E está tudo bem comigo.
Depois do último da roda, o Patrick sempre perguntava se alguém queria se abrir. E aí começava a punheta grupal de apoio mútuo: todo mundo falando de lutar, combater, vencer, remitir e examinar. Para não ser injusta com o Patrick, ele nos deixava falar da morte. Mas a maioria ali não estava morrendo. A maioria viveria até a idade adulta. Como o Patrick.
(Isso significa que havia muita competição, com todo mundo querendo vencer não só o câncer, mas também as outras pessoas da roda. Tipo, eu sei que não faz o menor sentido, mas quando você ouve que tem, por exemplo, vinte por cento de chance de viver cinco anos, e faz as contas e conclui que isso é uma chance em cinco… você olha em volta e pensa, como qualquer pessoa saudável faria: eu preciso durar mais que quatro desses desgraçados.)
A única coisa que salvava no Grupo de Apoio era um menino chamado Isaac, um magrelo de rosto comprido, com cabelos loiros e lisos que cobriam um de seus olhos. E seu problema eram os olhos. Ele teve um tipo inacreditavelmente improvável de câncer ocular. Um olho foi extraído quando ele era pequeno, e agora o Isaac usava um par de óculos fundo de garrafa que fazia os olhos (tanto o de verdade quanto o de vidro) parecerem sobrenaturalmente grandes, como se a cabeça inteira fosse basicamente o globo ocular de mentira e o de verdade olhando para você. Pelo que pude entender das raras vezes que ele se abriu para o grupo, uma recorrência colocou o olho que resta em perigo mortal.
O Isaac e eu nos comunicávamos quase exclusivamente por meio de suspiros. Cada vez que alguém falava de dietas anticâncer, de cheirar cartilagem de tubarão em pó ou sei lá, ele me olhava e suspirava de leve. Eu balançava a cabeça em um movimento microscópico e dava um suspiro em resposta.
* * *
Eu: "Eu me recuso a ir ao Grupo de Apoio."
Mamãe: "Um dos sintomas da depressão é a falta de interesse em participar de atividades."
Eu: "Por favor, mãe, deixe eu ficar vendo America’s Next Top Model. Isso é uma atividade."
Mamãe: "Televisão é passividade."
Eu: "Pô, mãe, por favor…"
Mamãe: "Hazel, você já é adolescente. Não é mais criancinha. Precisa fazer amigos, sair de casa, viver sua vida."
Eu: "Se você quer que eu aja como adolescente, não me mande para o Grupo de Apoio. Compre uma carteira de identidade falsa para mim e aí eu vou sair à noite, beber vodca e tomar baseado."
Mamãe: "Para início de conversa, não se toma baseado."
Eu: "Viu? Esse é o tipo de coisa que eu saberia se você comprasse uma carteira de identidade falsa para mim."
Mamãe: "Você vai para o Grupo de Apoio."
Eu: "SAAAAAAACO."
Mamãe: "Hazel, você merece uma vida."
Aquilo me fez calar a boca, mesmo não tendo conseguido entender o que a ida ao Grupo de Apoio tinha a ver com a definição de vida. De qualquer jeito, concordei em ir — depois de negociar o direito de gravar o episódio e meio do ANTM que eu ia perder. Ia ao Grupo de Apoio pelo mesmo motivo que uma vez deixei enfermeiras com um ano e meio de faculdade me envenenarem com substâncias químicas de nomes exóticos: queria fazer meus pais felizes. Só tem uma coisa pior nesse mundo que bater as botas aos dezesseis anos por causa de um câncer: ter um filho que bate as botas por causa de um câncer.
* * *
Mamãe parou na entrada de carros circular atrás da igreja às 4h56. Fingi que estava ajeitando o cilindro de oxigênio por um segundo só para ganhar tempo.
— Quer que eu o carregue até lá dentro?
— Não, está tudo bem — respondi.
O cilindro verde só pesava uns poucos quilos e eu tinha um carrinho de aço para transportá-lo. Aquilo me fornecia dois litros de oxigênio por minuto através de uma cânula, um tubo transparente que se dividia bem embaixo do meu pescoço, passava por trás das orelhas e se juntava de novo nas narinas. A geringonça era necessária porque meus pulmões faziam um péssimo trabalho como pulmões. — Eu te amo — ela disse, enquanto eu saltava do carro.
— Eu também, mãe. Vejo você às seis.
— Faça amigos! — ela gritou pela janela abaixada enquanto eu me distanciava. Não quis usar o elevador porque isso é o tipo de coisa que você faz nos seus ‚Últimos dias no Grupo de Apoio‛, então fui de escada. Peguei um biscoito, coloquei um pouco de limonada num copo descartável e me virei.
Um garoto olhava fixamente para mim.
Eu tinha quase certeza de nunca ter visto aquele cara na vida. Alto e magro, mas musculoso, ele fazia a cadeira de plástico, daquelas usadas em sala de aula, parecer minúscula. Cabelo acaju, liso e curto. Parecia ter a minha idade, talvez um ano mais velho, e estava sentado com o cóccix na beirada da cadeira, uma postura péssima, com uma das mãos enfiada até a metade no bolso da calça jeans escura.
Desviei o olhar, repentinamente consciente da quantidade infinita de coisas erradas em mim. Eu estava com uma calça jeans velha, que algum dia foi justa mas que agora ficava folgada nos lugares mais estranhos, e uma camiseta de malha amarela com o nome de uma banda da qual eu nem gostava mais. Tinha também meu cabelo: cortado tipo Príncipe Valente, e eu nem tive a preocupação de, puxa, dar uma escovada nele. Além disso, minhas bochechas estavam ridiculamente redondas, como as de um esquilo, efeito colateral do tratamento. Eu era uma pessoa de proporções normais com um balão no lugar da cabeça. Isso sem falar do
inchaço nos tornozelos. Mesmo assim, dei uma espiada rápida e os olhos dele ainda estavam grudados em mim.
Foi então que entendi o verdadeiro sentido de aquilo ser chamado de contato visual.
Andei até a roda e me sentei ao lado do Isaac, a duas cadeiras do garoto. Olhei de novo, rapidamente. Ele ainda me observava.
Na boa, vou logo dizendo: ele era um gato. Se um cara que não é gato encara você sem parar, isso é, na melhor das hipóteses, esquisito, e na pior, algum tipo de assédio. Mas se é um cara gato… na boa…
Peguei meu celular e apertei uma tecla para ver as horas. Os lugares na roda foram ocupados por azarados de doze a dezoito anos e, então, o Patrick deu início aos trabalhos com a prece da serenidade: Senhor, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que posso, e sabedoria para reconhecer a diferença entre elas.
O garoto ainda estava me encarando. Senti meu rosto ficar vermelho.
Por fim, resolvi que a melhor estratégia seria também olhar fixamente para ele. Afinal de contas, os garotos não detêm o monopólio da Atividade
Encaradora. Foquei nele enquanto o Patrick explicava pela milésima vez sua ausência debolas etc., e aquilo logo virou um Jogo do Sério. Depois de um tempo o garoto sorriu e, até que enfim, desviou os olhos azuis. Quando me olhou de novo, arqueei as sobrancelhas como que dizendo: ganhei.
Ele deu de ombros. O Patrick prosseguiu e, enfim, a hora das apresentações chegou.
— Isaac, talvez você queira ser o primeiro hoje. Sei que está enfrentando um grande desafio no momento.
— É — o Isaac disse. — Meu nome é Isaac. Tenho dezessete anos. Parece que vou precisar ser operado em duas semanas, depois vou ficar cego. Não estou reclamando nem nada porque sei que poderia ser pior,
como no caso de alguns aqui, mas, quer dizer, ficar cego é, tipo, uma droga. Ter uma namorada me ajuda. Além de amigos como o Augustus. — Ele balançou a cabeça na direção do garoto, que agora tinha nome. — Pois é… — continuou. Ele estava olhando para as mãos, os dedos cruzados parecendo o topo de uma tenda indígena. — Não há nada que se possa fazer para mudar isso.
— Estamos do seu lado, Isaac — o Patrick falou. — Vamos lá, pessoal, digam para o Isaac ouvir.
E então todos nós, em uníssono, dissemos:
— Estamos do seu lado, Isaac.
O Michael foi o próximo. Ele tinha doze anos. Sofria de leucemia.
Desde que se entendia por gente. E estava bem. (Pelo menos foi o que disse. Ele desceu de elevador.)
A Lida tinha dezesseis anos e era bonita o suficiente para ser alvo do olhar do cara gato. Era frequentadora assídua das reuniões — estava em um longo período de remissão de um câncer de apêndice, que eu nem
sabia que existia. Ela disse — como em todas as outras vezes que eu fui às sessões do grupo — que se sentia forte, o que para mim, com aquela chuvinha de oxigênio fazendo cosquinhas no nariz, era o mesmo que tirar onda. Outros cinco falaram antes do cara gato. Ele deu um sorrisinho quando chegou sua vez. A voz era baixa, aveludada e super sensual.
— Meu nome é Augustus Waters — disse. — Tenho dezessete anos.
Tive uma pitada de osteossarcoma um ano e meio atrás, mas só estou aqui hoje porque o Isaac pediu.
— E como está se sentindo? — o Patrick perguntou.
— Ah, maravilha. — Augustus Waters deu um sorrisinho. — Estou numa montanha-russa que só vai para cima, amigão.
Quando chegou minha vez, eu disse:
— Meu nome é Hazel. Tenho dezesseis anos. Tireoide com metástase nos pulmões. Estou bem. A hora passou rápido. Lutas foram recontadas, batalhas ganhas em guerras que com certeza seriam perdidas; a esperança virou tábua de salvação; famílias foram celebradas e recriminadas; foi consenso que os amigos não entendiam nada; lágrimas foram compartilhadas, e consolo, oferecido.
Nem eu nem o Augustus Waters tínhamos soltado uma palavra, até que o Patrick disse:
— Augustus, talvez você queira falar de seus medos para o grupo.
— Meus medos?
— É.
— Eu tenho medo de ser esquecido — disse ele de bate-pronto. — Tenho medo disso como um cego tem medo de escuro.
— Calma aí… — disse Isaac, abrindo um sorriso.
— Estou sendo insensível? — perguntou o Augustus. — Eu posso ser bem cego quando o assunto são os sentimentos das outras pessoas.
O Isaac estava rindo, mas o Patrick levantou um dedo, repreendendoo.
— Por favor, Augustus. Voltemos a você e às suas questões. Disse que tem medo de ser esquecido? — É — respondeu o Augustus.
O Patrick pareceu meio perdido.
— Alguém, ahn, alguém gostaria de fazer algum comentário?
Eu não frequentava uma escola de verdade havia três anos. Meus melhores amigos eram meus pais. Meu terceiro melhor amigo era um escritor que nem sabia que eu existia. Eu era relativamente tímida — de jeito nenhum o tipo que levanta a mão para falar. E, mesmo assim, só dessa vez, resolvi abrir o verbo. Levantei a mão, e o Patrick, a satisfação estampada na cara, disse:
— Hazel!
Eu estava, tenho certeza de que foi isso o que ele pensou, me abrindo.
"Me tornando parte do grupo."
Olhei na direção do Augustus Waters, que me encarava. Dava quase para ver através dos olhos dele, de tão azuis.
— Vai chegar um dia — eu disse — em que todos vamos estar mortos. Todos nós. Vai chegar um dia em que não vai sobrar nenhum ser humano sequer para lembrar que alguém já existiu ou que nossa espécie fez qualquer coisa nesse mundo. Não vai sobrar ninguém para se lembrar de Aristóteles ou de Cleópatra, quanto mais de você. Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui — fiz um gesto abrangente — vai ter sido inútil. Pode ser que esse dia chegue logo e pode ser que demore milhões de anos, mas, mesmo que o mundo sobreviva a uma explosão do Sol, não vamos viver para sempre. Houve um tempo antes do surgimento da consciência nos organismos vivos, e vai haver outro depois. E se a inevitabilidade do esquecimento humano preocupa você, sugiro que deixe esse assunto para lá. Deus sabe que é isso o que todo mundo faz.
Eu tinha aprendido aquilo com meu já citado terceiro melhor amigo, Peter Van Houten, o autor recluso de Uma aflição imperial — de todos os meus livros, o mais próximo de uma Bíblia. Peter Van Houten era a única pessoa que eu conhecia que parecia: (a) entender o que era estar morrendo, e (b) não ter morrido.
Assim que terminei fez-se um longo silêncio, e eu pude ver um sorriso se abrindo de um canto ao outro no rosto do Augustus — não o tipo de sorriso cafajeste do garoto tentando parecer sexy ao me encarar, mas um sorriso sincero, quase maior que a cara dele.
— Caramba! — disse ele baixinho. — Não é que você é mesmo demais?
Nós dois não falamos mais nada até o fim da reunião, quando todos se deram as mãos e o Patrick nos guiou em uma prece.
— Senhor Jesus Cristo, estamos aqui reunidos em Seu coração, literalmente em Seu coração, como sobreviventes do câncer. O Senhor e somente o Senhor nos conhece como conhecemos a nós mesmos. Nos guie pela vida e para a Luz em nossos períodos de provação. Oremos pelos olhos do Isaac, pelo sangue do Michael e do Jamie, pelos ossos do Augustus, pelos pulmões da Hazel, pela garganta do James. Oremos para que o Senhor consiga nos curar e para que possamos sentir Seu amor e Sua paz, que excedem todo o entendimento. E nos lembremos em nossos corações daqueles que um dia conhecemos, amamos e que foram para a Sua casa: Maria, Kade, Joseph, Haley, Abigail, Angelina, Taylor, Gabriel…
A lista era grande. Tem muita gente morta no mundo. E enquanto o Patrick continuava a ladainha, lendo a relação em uma folha de papel porque era muito comprida para ser decorada, fiquei de olhos fechados, tentando elevar os pensamentos em oração, mas a maior parte do tempo imaginava o dia em que meu nome ocuparia um lugarzinho ali, bem no fim da lista, quando ninguém mais está prestando atenção.
Quando o Patrick acabou, entoamos juntos aquele mantra idiota —VIVENDO O MELHOR DA NOSSA VIDA HOJE — e foi o fim da reunião. O Augustus Waters empurrou o corpo para fora da cadeira e caminhou na minha direção. O andar dele era tão cafajeste quanto o sorriso. Ele parou na minha frente, mas manteve uma certa distância para eu poder olhá-lo nos olhos sem ter de esticar o pescoço.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
— Hazel.
— Não, o nome completo.
— Ahn, Hazel Grace Lancaster. Ele ia dizendo alguma coisa quando o Isaac se aproximou.
— Só um instante — falou, levantando um dedo, e virou-se para o
Isaac. — Isso foi pior do que você tinha dito, na verdade.
— Eu disse que era um tédio.
— Por que você se dá o trabalho de vir aqui?
— Sei lá. Meio que ajuda…?
O Augustus inclinou o corpo achando que assim eu não conseguiria ouvi-lo.
— Ela vem sempre? — Não deu para escutar o comentário do Isaac, mas o Augustus respondeu:
— Quer saber? — Ele pegou o Isaac pelos ombros e deu meio passo para trás.
— Conte à Hazel da ida ao médico.
O Isaac apoiou uma das mãos na mesa de biscoitos e virou o olho enorme para mim.
— Tá, é que eu fui ao médico hoje de manhã e estava falando para o meu cirurgião que preferiria ser surdo a ser cego. E ele disse: "Não é assim que as coisas funcionam." Aí eu falei, tipo: "É, eu sei que não é assim; só estou dizendo que preferiria ser surdo a ser cego se pudesse escolher, mas sei que não posso." E ele: "Bem, a boa notícia é que você não vai ficar surdo." Eu disse: "Obrigado por esclarecer que meu câncer no olho não vai me deixar surdo. É muita sorte minha ter um gênio como você me operando."
— Ele é mesmo um gênio — falei. — Vou tentar arrumar um câncer qualquer no olho para poder conhecer esse cara.
— Boa sorte. Então, tá. Já vou indo. A Monica está me esperando.
Preciso olhar bastante para ela enquanto posso.
— Counterinsurgence amanhã? — o Augustus perguntou.
— Com certeza. — O Isaac deu meia-volta e subiu as escadas correndo, pulando os degraus de dois em dois.
Augustus Waters se virou para mim:
— Literalmente.
— Literalmente? — perguntei. — Estamos literalmente no coração de Jesus… Achei que estivéssemos no porão de uma igreja, mas estamos literalmente no coração de Jesus.
— Alguém deveria contar isso para Jesus — falei. — Quer dizer, deve ser perigoso ficar guardando crianças com câncer no coração.
— Eu mesmo poderia contar — o Augustus falou —, mas, para minha infelicidade, estou literalmente enterrado no coração Dele, então Ele não vai conseguir me ouvir.
Eu ri. O Augustus balançou a cabeça, me olhando.
— O que foi? — perguntei.
— Nada — ele respondeu.
— Por que você está olhando para mim desse jeito?
Ele deu um sorrisinho.
— Porque você é bonita. Eu gosto de olhar para pessoas bonitas, e faz algum tempo que resolvi não me negar os prazeres mais simples da existência humana. — Um silêncio constrangedor se seguiu.
Mas o Augustus quebrou o gelo.
— Quer dizer, principalmente porque, como você deliciosamente observou, tudo isso vai acabar em total esquecimento, e tal… Eu meio que engasguei, ou suspirei, ou soltei o ar de um jeito que pareceu quase uma tosse, e disse:
— Eu não sou boni…
— Você é tipo uma Natalie Portman milenar. Tipo a Natalie Portman em V de Vingança.
— Não vi esse filme — falei.
— Sério? — ele perguntou. — Garota linda, de cabelo curto, rejeita a autoridade e não consegue resistir a um cara que ela sabe que vai ser um problema. É sua autobiografia, pelo menos até aqui, pelo que posso ver.
Cada sílaba que saía da boca dele flertava comigo.
O.k., ele meio que me deixava excitada. Eu nem sabia que garotos podiam me deixar excitada — pelo menos não, tipo, na vida real.
Uma menina mais nova passou por nós.
— E aí, Alisa. Tudo bem? — ele perguntou. Ela sorriu e balbuciou:
— Oi, Augustus.
— Gente do Memorial — ele explicou.
Memorial era o grande hospital de pesquisas.
— Qual você frequenta?
— O Hospital Pediátrico — respondi, meu tom de voz mais baixo do que eu pretendia. Ele fez que sim com a cabeça. A conversa parecia ter chegado ao fim. — Bem — falei, mexendo a cabeça vagamente na direção dos degraus que levavam para fora do Coração Literal de Jesus. Inclinei o carrinho do oxigêniopara apoiá-lo nas rodinhas e comecei a andar. O Augustus foi mancando ao meu lado. — Então, a gente se vê na próxima, talvez? — perguntei.
— Você deveria assistir — ele falou. — Ao V de Vingança, quero dizer.
— Tá. Vou ver se acho para assistir.
— Não. Comigo. Na minha casa — ele disse. — Agora.
Parei de andar.
— Eu mal conheço você, Augustus Waters. Você pode muito bem ser
o assassino do machado.
Ele concordou.
— Tem toda razão, Hazel Grace.
E passou por mim, os ombros dando forma à camisa polo verde, as costas retas, os passos da direita um pouco mais marcantes enquanto andava firme e confiante apoiado no que eu determinei ser uma prótese. Às vezes o osteossarcoma leva um dos membros só para dar uma sondada em você. Depois, se gostar, leva o restante. Eu o segui escada acima, devagar, ficando para trás. Degraus não são o forte dos meus pulmões. Aí fomos do coração de Jesus até o estacionamento, o frescor da brisa da primavera na medida certa, a luz do fim de tarde divina em sua nocividade.
Mamãe não tinha chegado ainda, o que era estranho, porque ela quase sempre estava lá esperando por mim. Olhei em volta e vi que uma garota alta, morena e boazuda imprensava o Isaac na parede de pedra da igreja, beijando o menino de um jeito quase agressivo. Estávamos tão perto que eu podia escutar os ruídos estranhos das duas bocas grudadas, e ouvi o Isaac dizendo "sempre", e ela respondendo com "sempre" também.
O Augustus apareceu de repente ao meu lado e sussurrou:
— Eles são grandes adeptos de demonstrar afeto em público.
— Qual é a do ‚sempre‛?
O ruído da troca de saliva aumentou de intensidade.
— ‚Sempre‛ é o lema deles. Sempre vão se amar, e tal. Pelos meus
cálculos, e sendo bastante conservador, eles devem ter trocado quatro
milhões de mensagens de texto com a palavra sempre no ano passado.
Mais dois carros chegaram, levando embora o Michael e a Alisa. Aí
sobramos só o Augustus e eu, observando o Isaac e a Monica, que
continuavam frenéticos, como se não estivessem encostados na parede de
um local de oração. Ele pôs a mão no peito dela, por cima da blusa, e
apalpou o mamilo, a mão imóvel enquanto os dedos se mexiam. Fiquei me
perguntando se aquilo seria gostoso. Não parecia, mas resolvi perdoar o
Isaac levando em conta o fato de que ele estava para ficar cego. Os
sentidos devem aproveitar enquanto ainda há apetite, e tal.
— Imagine a última ida de carro até o hospital — falei, baixinho. — A
última vez que você vai dirigir um carro.
Sem me olhar, o Augustus disse:
— Você está atrapalhando a minha vibe aqui, Hazel Grace. Estou
tentando observar o amor adolescente em sua esplendorosa estranheza. —
Acho que ele está machucando o peito dela — comentei.
— É. É difícil saber ao certo se ele está tentando excitar a menina ou
fazer um exame de mama.
Aí o Augustus colocou a mão no bolso e tirou de lá, por incrível que
pareça, um maço de cigarros. Levantou a tampa da caixinha e colocou um
cigarro na boca.
— Isso é sério? — perguntei. — Você acha isso legal? Ai, meu Deus,
você acabou de estragar a coisa toda.
— Que coisa toda? — ele perguntou, virando para mim. O cigarro pendia apagado da boca, do canto que não sorria.
— A coisa toda em que um garoto que não é pouco atraente ou pouco
inteligente ou, aparentemente, de forma alguma pouco tolerável me encara
e chama minha atenção para utilizações incorretas da literalidade e me
compara a atrizes e me convida para ver um filme na casa dele. Mas é
claro que sempre tem uma hamartia e a sua é que, ai, meu Deus, mesmo
você TENDO TIDO UM RAIO DE UM CÂNCER ainda dá dinheiro
para uma empresa em troca da chance de ter MAIS CÂNCER. Ai, meu
Deus. Deixe eu só dizer para você como é não conseguir respirar? É UM
INFERNO. Totalmente decepcionante. Totalmente.
— Uma hamartia? — ele perguntou, o cigarro ainda na boca.
Aquilo deixava sua mandíbula contraída. E a linha da mandíbula dele,
infelizmente, era tudo…
— Uma falta trágica — expliquei, dando as costas para ele.
Dei um passo na direção do meio-fio, deixando o Augustus Waters
para trás, e foi então que ouvi um carro dando a partida mais adiante na
rua. Era a mamãe. Ela tinha ficado ali, esperando que eu, tipo, fizesse
amigos ou coisa assim.
Senti um misto de decepção e raiva crescendo em mim. Nem sei
direito que sentimento era aquele, sério, só que havia muito dele, e eu
queria dar um soco na cara do Augustus Waters e ao mesmo tempo trocar
meus pulmões por outros que não fossem péssimos. Eu estava de pé bem
na pontinha do meio-fio com meu All-Star Chuck Taylors, o cilindro de
oxigênio no carrinho ao meu lado parecendo aquela bola de ferro que fica
presa com uma corrente no tornozelo de um prisioneiro, e na hora que
minha mãe ia encostando o carro senti a mão dele pegar a minha.
Puxei a mão mas me virei para ele.
— Eles não matam se você não acender — disse ele quando mamãe
parou junto ao meio-fio. — E eu nunca acendi nenhum. É uma metáfora.
Tipo: você coloca a coisa que mata entre os dentes, mas não dá a ela o
poder de completar o serviço.
— É uma metáfora — falei, hesitante.
Mamãe esperava, quieta. — É uma metáfora — ele repetiu.
— Você determina seu comportamento com base nas ressonâncias
metafóricas…
— Ah, é. — Ele sorriu. O sorriso largo, meio bobo e sincero. — Sou
um grande adepto da metáfora, Hazel Grace.
Eu me virei para o carro. Dei uma batidinha na janela. Que se abriu.
— Vou ver um filme com o Augustus Waters — falei. — Grave, por
favor, os próximos episódios da maratona do ANTM para mim.
Então o Grupo de Apoio deu o que tinha de dar, e depois de algumas semanas eu passei a surtar quando tocavam no assunto. Na verdade, na quarta-feira em que conheci o Augustus Waters, tinha feito de tudo para me livrar da ida à sessão de grupo enquanto estava sentada no sofá com a mamãe, no meio da terceira parte da maratona de doze horas da temporada anterior de America’s Next Top Model, que, confesso, já tinha visto, mas mesmo assim…
Cap.2
Os exames de aptidão começam depois do almoço. Sentamo-nos ao longo das extensas mesas do refeitório enquanto os avaliadores chamavam dez nomes por vez, um para cada sala de avaliação. Eu sentei ao lado de Caleb, e em frente a nossa vizinha, Susan.
O pai de Susan anda por toda a cidade a trabalho, então ele tem um carro e a deixa na escola todos os dias. Ele se ofereceu para nos levar também, mas Caleb disse que preferimos sair mais tarde e não queremos incomodá-los.
Claro que não queremos.
Os avaliadores são, na maioria, integrantes voluntários da Abnegação, embora haja um voluntário da Erudição em uma das salas de avaliação e um da Audácia em outra para testar os membros da Abnegação como nós, uma vez que as regras determinam que não podemos ser testados por alguém de nossa própria facção. As regras também dizem que não podemos nos preparar de forma alguma para a avaliação, assim, eu não sei o que esperar.
Meu olhar viaja de Susan até a mesa dos integrantes da Audácia, do outro lado da sala. Eles estão rindo, gritando e jogando cartas. Em outra mesa, os integrantes da Erudição discutem sobre livros e jornais, numa busca constante por conhecimento.
Um grupo de garotas da Amizade, vestidas de amarelo e vermelho, senta em círculo no chão da cafeteria, brincando de algum tipo de jogo que envolve canções ritmadas e batidas de mão. A cada minuto escuto gargalhadas delas quando alguém é eliminado da brincadeira e obrigado a sentar no meio do círculo. Na mesa ao lado da delas, garotos da Franqueza gesticulam selvagemente com as mãos. Eles parecem discutir a respeito de alguma coisa, mas não deve ser nada sério, já que alguns deles ainda estão sorrindo.
Na mesa da Abnegação, nos sentamos em silêncio e esperamos. Os costumes da facção determinam comportamento ocioso e supressão das preferências individuais. Não acredito que todos os integrantes da Erudição queiram estudar todo o tempo, ou que cada um dos integrantes da Franqueza goste de debates acalorados, mas eles não podem desafiar as regras de suas facções mais do que eu posso.
Caleb é chamado no próximo grupo. Ele caminha confiante em direção à saída. Não preciso desejar boa sorte para ele, ou dizer que não precisa ficar nervoso. Ele conhece seu lugar, sabe a qual facção pertence, sempre soube. Minha primeira memória dele é de quando nós tínhamos quatro anos de idade. Ele me repreendeu por não dar minha corda de pular para uma garotinha no parquinho que não tinha nada para brincar. Ele não me deu sermões com frequência depois disso, mas eu ainda tenho seu olhar de desaprovação gravado em minha memória.
Tentei explicar-lhe que meus instintos não são iguais aos dele – nem ao menos passou pela minha cabeça ceder meu lugar ao homem da Franqueza no ônibus – mas ele não entendeu.
“Apenas faça o que você deve fazer”, ele sempre diz. É fácil assim para ele, e deveria ser para mim também.
Meu estômago se contorce. Fecho meus olhos e mantenho-os assim durante 10 minutos, até que Caleb volta e senta-se novamente.
Ele está branco como papel, correndo suas palmas ao longo das pernas, como faço quando limpo o suor das mãos. Quando ele as traz de volta, seus dedos tremem. Abro minha boca na tentativa de perguntar alguma coisa, mas as palavras não saem. Não era permitido que eu perguntasse nada a respeito de seu resultado e ele não está autorizado a me contar.
Um dos voluntários da Abnegação anuncia os próximos nomes. Dois da Audácia, dois da Erudição, dois da Amizade, dois da Franqueza, e então:
— Da Abnegação: Susan Black e Beatrice Prior.
Levanto-me porque devo, mas se dependesse de mim, eu permaneceria sentada. Sinto como se tivesse uma bolha em meu peito que aumenta a cada segundo, ameaçando me despedaçar de dentro para fora. Sigo Susan até a saída. As pessoas pelas quais eu passo provavelmente não podem nos diferenciar. Usamos as mesmas roupas e temos o mesmo cabelo loiro. A única diferença é que Susan não deve estar se sentindo como se fosse vomitar e, pelo que posso dizer, suas mãos não tremem tanto ao ponto de ela precisar agarrar as mangas de sua camisa para firmá-las.
Esperando por nós do lado de fora, estava um corredor com dez salas. Elas são utilizadas apenas para os testes de aptidão, então eu nunca estive dentro de nenhuma delas antes. Diferente das outras salas da escola, elas são separadas não por vidro, mas por espelhos. Observo meu reflexo pálido e aterrorizado passando por uma das portas. Susan pisca nervosamente para mim quando entra na sala cinco e eu entro na sala seis, onde uma mulher da Audácia espera por mim.
Ela não tem o olhar severo dos jovens da Audácia que eu já vi. Seus olhos são pequenos, escuros e angulares, e ela usa um blazer preto – como os ternos masculinos – e jeans. Apenas quando ela se vira para fechar a porta que eu percebo uma tatuagem na parte de trás do seu pescoço, um falcão preto e branco com olhos vermelhos. Se eu não estivesse me sentindo como se meu coração tivesse migrado para minha garganta, teria perguntado o que significava. Deve significar alguma coisa.
Espelhos cobrem as paredes internas da sala. Posso ver meu reflexo de todos os ângulos: o tecido cinza obscurecendo o formato das minhas costas, meu pescoço longo, minhas mãos com juntas protuberantes, vermelhas por causa do fluxo do sangue. O teto branco brilhando com as luzes. No centro da sala está uma cadeira reclinável, como aquelas do dentista, com uma máquina próxima a ela. Parece um lugar onde coisas terríveis acontecem.
— Não se preocupe — a mulher diz. — Não irá doer.
Seu cabelo é preto e liso, mas na luz eu vejo seus fios grisalhos.
— Sente-se e fique confortável — ela diz. — Meu nome é Tori.
Desajeitadamente, sento na cadeira e reclino meu corpo, colocando minha cabeça no encosto. As luzes machucam meus olhos. Tori ocupa-se com a máquina a minha direita. Eu tento focar nela e não nos fios em suas mãos.
— Por que o falcão? — deixo escapar enquanto ela fixa os eletrodos na minha testa.
— Nunca conheci um integrante da Abnegação curioso antes — ela diz, levantando suas sobrancelhas para mim.
Eu estremeço e os pelos do meu braço se arrepiam. Minha curiosidade é um erro, uma traição dos valores da Abnegação.
Murmurando um pouco, ela pressiona outro eletrodo na minha testa e explica:
— Em algumas partes no mundo antigo, os falcões simbolizavam o Sol. Quando eu fiz esta tatuagem, imaginei que, se eu sempre o tivesse o sol comigo, nunca teria medo do escuro.
Tentei me impedir de fazer outras perguntas, mas não pude evitar.
— Você tem medo do escuro?
— Eu tinha medo do escuro — ela me corrige, pressionando o próximo eletrodo em sua própria testa e prendendo um fio a ele. Ela dá de ombros. — Agora me lembra da superação do medo.
Ela posiciona-se atrás de mim. Aperto os braços da cadeira tão forte que meus dedos ficam brancos. Ela puxa os fios em direção a ela, prendendo a mim, a ela e a máquina atrás dela. Então me entrega um frasco com algum líquido transparente.
— Beba isto — ela diz.
— O que é isso? — minha garganta fica seca. É difícil engolir. — O que vai acontecer?
— Não posso te dizer isso. Apenas confie em mim.
Tomo fôlego e bebo rapidamente todo o conteúdo do frasco. Meus olhos se fecham.
+ + +
Quando os abro novamente, um instante se passou, mas estou em outro lugar. Estou na lanchonete mais uma vez, mas todas as mesas estão vazias e vejo através das paredes de vidro que está nevando. Na mesa em minha frente estão duas cestas. Em uma delas um pedaço generoso de queijo, na outra, uma faca do tamanho do meu antebraço.
Atrás de mim, a voz de uma mulher diz:
— Escolha.
— Por quê?
— Escolha — ela repete.
Eu olho sobre meu ombro, mas ninguém está lá. Olho novamente para as cestas.
— O que irei fazer com estas coisas?
— ESCOLHA! — ela grita.
Quando ela grita comigo, meu medo desaparece e teimosia toma seu lugar. Faço uma careta e cruzo meus braços.
— Então faremos do seu jeito — ela diz.
As cestas desaparecem. Ouço uma porta abrindo e me viro para ver quem é. Eu vejo não um “alguém”, mas “algo”. Um cachorro com nariz pontudo está parado a alguns metros de mim. Ele abaixa-se, seus lábios repuxados para traz expondo seus dentes brancos, um rosnado cresce do fundo de sua garganta, e eu vejo porque o queijo seria útil. Ou a faca. Mas é tarde demais.
Penso em correr, mas o cachorro seria mais rápido do que eu. Não posso derrubá-lo também. Minha mente pondera. Tenho que tomar uma decisão. Se eu pudesse pular sobre uma das mesas e usá-la como escudo – não, eu sou muito baixa para pular sobre as mesas, e não forte o bastante para levantar uma delas.
O cão rosna e eu quase posso sentir o som reverberando em meus ossos.
Meu livro de Biologia diz que cães podem farejar o medo devido a uma substância química secretada pelas glândulas humanas em estado de coação, a mesma substância liberada pela presa de um cão. Farejar o medo leva-os a atacar. O cachorro avança em minha direção, suas unhas arranhando o chão.
Não posso correr. Não posso lutar. Ao invés disso, respiro o bafo do cachorro e tento não imaginar o que ele acabou de comer. Não tem nem um pouco de branco em seus olhos, apenas um brilho negro.
O que mais eu sei sobre cachorros? Eu não deveria olhá-lo nos olhos. Isso é um sinal de agressão. Lembro-me de pedir um cachorrinho de estimação ao meu pai, quando era pequena, e agora, encarando o chão em frente às imensas patas do cachorro, não consigo lembrar por que. Ele se aproxima, ainda rosnando. Se encará-lo é um sinal de agressão, qual o sinal de submissão?
Minha respiração é alta, mas constante. Fico de joelhos. A última coisa que eu quero é deitar no chão em frente ao cachorro – fazendo com que seus dentes estejam bem à altura do meu rosto – mas é a melhor opção que eu tenho. Estico minhas pernas para trás e deito em meus cotovelos. O cachorro caminha cada vez mais próximo, até que eu sinto seu hálito quente em meu rosto. Meus braços tremem.
Ele late em meu ouvido, e eu prendo meus dentes para me impedir de gritar.
Alguma coisa áspera e molhada toca minha bochecha. O rosnado do cachorro para, e quando eu levanto minha cabeça para olhar, ele está ofegante. Ele lambe meu rosto. Eu franzo as sobrancelhas e sento sobre meus joelhos. O cachorro apoia as patas no meu colo e lambe meu queixo. Eu tremo limpando a baba da minha pele e sorrio.
— Você não é uma besta feroz, é?
Levanto devagar para não assustá-lo, mas ele parece um animal diferente daquele que me encarava segundos atrás. Estico minha mão cuidadosamente, caso precise puxá-la novamente. O cachorro balança minha mão com sua cabeça. E de repente estou feliz por não ter escolhido a faca.
Eu pisco, e quando meus olhos se abrem, uma criança está de pé do outro lado da sala usando um vestido branco. Ela estica as duas mãos e grita “Cachorrinho!”
Quando ela corre em direção ao cachorro ao meu lado, abro a boca para alertá-la, mas é tarde demais. O cachorro se vira. Ao invés de grunhir, ele late e rosna, flexionando seus músculos. Prestes a atacar. Eu não penso, apenas pulo. Arremesso meu corpo sobre o cão, agarrando seu pescoço com meus braços.
Minha cabeça acerta o chão. O cachorro se foi, assim como a garotinha. Ao invés disso, eu estou sozinha – na sala de teste, agora vazia. Viro-me devagar e não consigo ver meu reflexo em nenhum dos espelhos. Abro a porta e caminho para o corredor, mas não é um corredor, é um ônibus e todos os lugares estão ocupados.
Paro entre os bancos e me seguro a um dos encostos. Sentado próximo a mim está um homem com um jornal. Não consigo ver seu rosto, mas posso ver suas mãos. Elas estão cheias de cicatrizes, como se ele as tivesse queimado. Elas seguram o papel como se desejassem destroçá-lo.
— Você conhece esse rapaz? — ele pergunta.
Ele mostra a foto na primeira página do jornal. A manchete diz Assassino brutal finalmente preso! Encaro a palavra “assassino”. Muito tempo se passou desde que ouvi essa palavra, mas mesmo sua forma me enche de pavor. Na foto abaixo da manchete está um jovem homem com um rosto vazio e barba. Sinto como se o conhecesse, mas não consigo lembrar como. E ao mesmo tempo, sinto como se fosse uma má ideia dizer isso ao homem sentado.
— E então? — ouço raiva em sua voz. — Você o conhece?
Uma ideia ruim – não, uma péssima ideia. Meu coração acelera e eu agarro o encosto com mais força para impedir que minhas mãos tremam e me entreguem. Se eu disser ao homem que conheço o rapaz do artigo, alguma coisa terrível poderá acontecer comigo. Mas não posso convencê-lo de que não o conheço. Eu poderia limpar minha garganta e dar de ombros – mas isso seria uma mentira.
Limpo minha garganta.
— Você o conhece? — ele repete.
Dou de ombros.
— E então?
Um tremor atravessa meu corpo. Meu medo é irracional. É apenas um teste, não é real.
— Não — digo em minha voz casual. — Não tenho ideia de quem ele é.
Ele levanta e finalmente posso ver seu rosto. Ele usa óculos escuros e sua boca se dobra em um sorriso ameaçador. Sua bochecha está marcada por cicatrizes, assim como suas mãos. Ele se inclina próximo ao meu rosto. Seu hálito cheira a cigarros. Não é real, lembro-me. Não é real.
— Você está mentindo — ele diz. — Você está mentindo!
— Não estou.
— Posso ver em seus olhos que você está mentindo.
Empertigo-me.
— Não, você não pode.
— Se você o conhece — ele diz em voz baixa — você poderia me salvar. Você poderia me salvar!
Cerro meus olhos.
— Bem... — eu digo. Endureço meu queixo. — Não o conheço.
sexta-feira, 27 de maio de 2050
Divergente
Sinopse: Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto. A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é. E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.
Cap.1
Há um único espelho em minha casa. Ele fica atrás de um painel corrediço no corredor do andar de cima. Nossa facção permite que eu fique diante dele no segundo dia do mês, a cada três meses: no dia em que minha mãe corta o meu cabelo.
Eu me sento em um banco e minha mãe fica em pé atrás de mim com a tesoura, aparando. Os fios caem no chão, formando um anel loiro e maçante.
Ao terminar, ela afasta os cabelos do meu rosto e os amarra em um nó. Eu reparo em como ela parece calma, e em como ela está concentrada. Ela tem muita experiência na arte de perder-se em pensamentos. Não posso dizer o mesmo de mim.
Eu espio minha imagem no espelho quando ela não está prestando atenção – não por vaidade, mas por curiosidade. Um rosto pode mudar muito em três meses. No meu reflexo, vejo um rosto estreito, olhos grandes e redondos, e um nariz longo e delgado – ainda pareço uma menina pequena, apesar de ter completado dezesseis anos em algum momento dos últimos meses. As outras facções celebram aniversários, mas nós não. Seria um ato de autocomplacência.
— Pronto — ela diz, ao prender o nó com um grampo.
Seus olhos surpreendem os meus no espelho. É tarde demais para desviar o olhar, mas ao invés de me censurar, ela sorri, encarando o nosso reflexo. Eu franzo levemente minhas sobrancelhas. Por que ela não me repreendeu?
— Hoje é o dia, afinal — ela diz.
— Sim — eu respondo.
— Você está nervosa?
Por um momento, eu encaro meus próprios olhos. Hoje é o dia do teste de aptidão que me mostrará a qual das cinco facções eu pertenço. E amanhã, na Cerimônia de Escolha, escolherei uma facção; escolherei o caminho que irei trilhar pelo resto da minha vida; escolherei se devo ficar com a minha família ou abandoná-la.
— Não — eu respondo. — Os testes não precisam mudar nossas escolhas.
— Certo — ela sorri. — Vamos tomar o café da manhã.
— Obrigada. Por cortar o meu cabelo.
Ela beija meu rosto e desliza o painel sobre o espelho. Acredito que minha mãe poderia ter sido linda em um mundo diferente. Seu corpo é magro sob o manto cinza. As maçãs de seu rosto são salientes e seus cílios são longos, e quando ela solta o cabelo à noite, ele cai ondulante sobre seus ombros. Mas, como integrante da Abnegação, ela é obrigada a esconder a sua beleza.
Andamos juntas até a cozinha. Nessas manhãs em que meu irmão prepara o café, a mão do meu pai acaricia meus cabelos enquanto ele lê o jornal, e minha mãe cantarola enquanto limpa a mesa, é que eu me sinto mais culpada por querer deixá-los.
+ + +
O ônibus fede a fumaça. Cada vez que ele passa sobre um trecho irregular de asfalto, me sacode de um lado para o outro, mesmo que eu esteja me apoiando no banco para me manter parada.
Meu irmão mais velho, Caleb, está em pé no corredor, segurando a barra de metal acima de sua cabeça para manter-se firme. Não somos parecidos. Ele puxou o cabelo escuro e o nariz curvado do meu pai, e os olhos verdes e covinhas nas bochechas da minha mãe. Quando ele era mais novo, este conjunto de traços parecia estranho, mas agora lhe cai bem. Se ele não fosse um membro da Abnegação, tenho certeza de que as meninas da escola reparariam nele.
Ele também herdou o talento da minha mãe para o altruísmo. Ofereceu seu assento no ônibus sem hesitar a um rabugento membro da Franqueza.
O homem vestia um terno preto e uma gravata branca – o uniforme padrão da Franqueza. Sua facção valoriza a honestidade e enxerga a verdade em branco e preto. Por isso se vestem assim.
Os intervalos entre os prédios diminuem e as estradas ficam mais regulares à medida que nos aproximamos do centro da cidade. O edifício que um dia foi chamado de Sears Tower – e que hoje chamamos de Eixo – surge em meio à névoa, como uma pilastra escura no horizonte. O ônibus passa sob os trilhos elevados. Eu nunca entrei em um trem, embora eles nunca parem de circular e haja trilhos por toda a parte. Apenas os integrantes da Audácia andam de trem.
Há cinco anos, pedreiros voluntários da Abnegação restauraram algumas das ruas. Eles começaram os consertos pelo centro e seguiram em direção aos limites da cidade, até que seus materiais se esgotaram. As ruas da região onde eu moro ainda são rachadas e desiguais e não é seguro dirigir por elas. Mas isso não importa, porque nós não temos um carro.
A expressão de Caleb permanece tranquila enquanto o ônibus treme, balança e arranca pela estrada. Com o manto cinza dependurado em seu braço, ele segura a barra de ferro para manter o equilíbrio. Percebo pelos movimentos constantes de seus olhos que ele está observando as pessoas ao nosso redor – se esforçando para enxergar apenas elas, e não a si mesmo. A facção da Franqueza valoriza a honestidade, mas a nossa facção, a Abnegação, valoriza o altruísmo.
O ônibus para em frente à escola e eu me levanto, espremendo-me para passar entre o integrante da Franqueza e o banco da frente. Ao tropeçar sobre os sapatos do homem, me apoio na mão de Caleb. Minhas calças são longas demais e eu nunca fui muito graciosa.
O edifício dos Níveis Superiores abriga a mais antiga das três escolas da cidade: Níveis Inferiores, Níveis Medianos, e Níveis Superiores. Como todas as outras construções ao redor, ele é feito de vidro e aço. Há uma enorme escultura de metal em frente ao edifício que os integrantes da Audácia costumam escalar depois das aulas, desafiando uns aos outros a subir cada vez mais alto. No ano passado, vi uma das integrantes cair e quebrar a perna. Fui eu que corri para chamar a enfermeira.
— Testes de aptidão hoje — eu digo.
Caleb não é nem um ano mais velho que eu, então somos da mesma série.
Ele acena com a cabeça ao atravessarmos a porta de entrada. Meus músculos contraem-se quando entramos no prédio. Há um clima de fome no ar, como se cada aluno de dezesseis anos estivesse tentando devorar o máximo deste dia possível. É bem provável que não caminhemos mais por estes corredores depois da Cerimônia de Escolha – depois que escolhermos nossas novas facções, elas se encarregarão de nos oferecer o resto dos nossos estudos.
Nossas aulas hoje durarão metade do tempo para que assistamos todas elas antes do teste de aptidão, que ocorrerá depois do almoço. Meu coração já está acelerado, só de pensar.
— Você não está nem um pouco preocupado com o que ele pode revelar? — eu pergunto a Caleb.
Paramos na bifurcação do corredor, de onde ele seguirá em uma direção, para a aula de Matemática Avançada, e eu em outra, para a aula de História das Facções.
Ele levanta uma sobrancelha para mim.
— Você está?
Poderia dizer-lhe que tenho me preocupado há semanas a respeito do que o teste de aptidão irá me revelar: Abnegação, Franqueza, Erudição, Amizade, ou Audácia?
No entanto, apenas sorrio e digo:
— Não muito.
Ele sorri de volta.
— Bem... Tenha um bom dia.
Sigo para a aula de História das Facções, mordendo o meu lábio inferior. Ele não respondeu a minha pergunta.
Os corredores são estreitos, embora a luz que entra pelas janelas crie a ilusão de espaço. São uns dos poucos lugares em que pessoas da nossa idade e de facções diferentes se misturam. Hoje, os estudantes apresentam uma energia diferente, uma sensação de último dia.
Uma menina de cabelos longos e encaracolados grita “ei!” perto do meu ouvido, acenando para um amigo distante. Uma manga de jaqueta esbarra na minha cara. De repente, um garoto da Erudição vestindo um casaco azul me empurra. Perco o equilíbrio e caio no chão com força.
— Sai da frente, Careta — ele diz rispidamente, e segue pelo corredor.
Meu rosto esquenta. Levanto-me e me ajeito. Algumas pessoas pararam quando eu caí, mas nenhuma ofereceu ajuda. Seus olhares apenas me acompanham até o final do corredor. Esse tipo de coisa tem acontecido com outros integrantes da minha facção há meses – os membros da Erudição têm divulgado relatórios antagônicos em relação à Abnegação, e isso tem afetado nosso relacionamento na escola. As roupas cinza, o corte de cabelo simples e o comportamento modesto da nossa facção deveriam me ajudar a esquecer de mim mesma, e fazer com que as outras pessoas se esquecessem de mim também. Mas agora eles fazem de mim um alvo.
Eu paro em frente a uma janela da Ala E, e espero a chegada dos integrantes da Audácia. Faço isso todas as manhãs. Às 7:25 em ponto, eles provam sua coragem ao pular de um trem em movimento.
Meu pai chama os integrantes da Audácia de “endiabrados”. Eles têm piercings, tatuagens, e usam roupas escuras. Sua principal função é proteger a grade que circunda nossa cidade. Proteger de que, eu não sei.
Eles deveriam me deixar chocada. Eu deveria me perguntar o que a coragem – que é a virtude que eles mais valorizam – tem a ver com um anel de metal pendurado no nariz. No entanto, eu os sigo com os olhos por onde quer que eles andem.
O apito do trem toca alto e seu som ressoa em meu peito. O farol do trem pisca enquanto a composição se desloca violentamente e passa em frente à escola, com suas rodas rangendo contra os trilhos de metal. Ao passarem os últimos vagões, uma quantidade enorme de jovens com roupas escuras se atira do trem em movimento, alguns caindo e rolando no chão, outros pisando em falso rapidamente antes de recobrarem o equilíbrio. Um dos garotos coloca o braço em volta dos ombros de uma menina, rindo.
Assisti-los é uma atividade vã. Eu desvio meu olhar da janela e atravesso a multidão até a sala de História das Facções.
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